sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Folga alheia versus bondade alheia

Você vai ler este texto agora e vai pensar: “Nossa! Isso descreve fulano, aquele folgado!”.
Folgado é aquele ser descansado, livre de deveres.
Folgada é aquela gente exploradora, oportunista e acomodada, que gosta de gentileza em excesso.
É gente que aproveita do bom coração de outras pessoas, só pensa em si ultrapassa os limites do bom senso, testando constantemente nossa paciência.
É a falsa vítima do mundo, um ser ardiloso que traz no olhar uma tristeza fingida. Aos poucos se torna um folgado profissional, que não suporta seguir regras, sente-se mais esperto que todos e vive cobrando uma dívida do universo.
Fica tranquilo. Você não é o único que buscou esse ser aí no pensamento.
Os folgados estão em toda parte do mundo, sempre a se apoiarem em alguém, a sugar suas energias, fugindo das responsabilidades e esforços, criando desculpas e barreiras que os impedem de ser alguém independente.
Mentem bastante também. Na fala, são eloquentes, sedutores. Seus discursos são moralistas e cheio de palavras difíceis. Pagam de humildes e, para provar o quanto o mundo é injusto, vivem nas redes sociais escrevendo textões e gravando vídeos que mostram seus olhares necessitados, protestando contra algo ou alguém. As almas mais generosas ainda dão algum crédito.
Trabalhar que é bom... nada! Os braços são curtos e o coração... Ah, o coração se regozija com a bondade alheia.
Se tem alguém para fazer tudo por eles, não compensa o estresse. Pra que acordar cedo para garantir o pão de cada dia, se tem alguém pra colocar o pão lá?
Entretanto, chega um momento em que os corações moles também enrijecem e se cansam de suprir necessidades e desejos desses folgados, que têm neste ‘meio de vida’ a tônica a alimentar sua falta de vergonha. Estoques de óleo de peroba que o digam!
A hora em que a coisa aperta, eles dão uma de insanos.


Coitados! Precisam de amigos. Amigos que deem carona, bebida, cigarro e que paguem a conta no final da noite. Precisam de atenção. Atenção que deve vir acompanhada de um prato fundo de comida quentinha, suco gelado, sobremesa, louça lavada, TV e sofá para a sesta. Precisam de carinho. Carinho que vem junto de uma cama quente, uma viagem na faixa e uma grana extra.
Bem... Pessoas desse tipo são mais espertas do que se imagina. Agem de má fé e têm um planejamento, certeza. Não atacam sempre os mesmos grupos de pessoas generosas por medo de levarem nãos.
Caras-de-pau assim precisam de uma surra de realidade pra perceber que gentileza não é tirar proveito do outro. Têm que trabalhar pra saber quanto custa o pão, aí, sim, ter moral pra reclamar do mundo. Ah, e as almas atenciosas precisam ser boas, não bobas.


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

De quem é a culpa mesmo?

Madame não educa. A mãe de um aluno de um colégio tradicional da Tijuca, no Rio, pediu que a direção proíba o pipoqueiro de trabalhar na porta da escola. É que ela proibiu o filho de comer pipoca. Mas, sempre que vê o pipoqueiro, o miúdo pede à mãe para comprar. E ela não sabe dizer não. Ah, bom! (O Globo – Rio de janeiro, 8 agosto de 2017.)

Querida madame, como tantas outras, você, com certeza, terceiriza a educação de seu lindo filho. Não sabe dizer o não, não dá a ele limites e culpa o mundo por qualquer erro em sua educação.
Como você, conheci um monte na época em que era professora – até ontem.
Você é o tipo de mãe que apoia tudo o que o seu miúdo faz, esteja ele certo ou errado. Superprotege e chama isso de amor. Acho isso é intolerável, sabia?
Fico pensando, seriamente, como deve ser aí na sua casa, onde seu filho deve mandar e desmandar, mas não sabe limpar o bumbum após o número dois.
Pra mim isso é triste. Pra você, com certeza, deve ser bonitinho. Ele tem só 8 anos.
8 anos… Tempo suficiente para ter a astúcia de mentir pra você numa segunda-feira, dizendo que está com dor, só pra perder a prova de matemática.
Você não tem a esperteza dele, tampouco conhece doença infantil. Apenas permite que ele falte, depois vai lá brigar na escola, querendo obrigar professor a aplicar a avaliação em nova data, mesmo sem apresentação de atestado médico.
Nunca entendi de onde vem essa sua arrogância. Alguém já te contou que o mundo não gira em torno de você?
Ah, não?
Pois, então, não gira! E saiba que você não é a única que trata seu filho como um bebê para passar a impressão de boa mãe.
No mês passado, em uma sala de aula de crianças de 10 anos, confisquei o aparelho celular de uma aluna. Era o último modelo de iPhone. Levei para a direção e informei o ocorrido: a aluna tirava selfies durante a aula, ignorando minha presença.
A mãe, que nunca tinha ido à escola após a matrícula, foi comunicada e apareceu lá furiosa no dia seguinte. Ela estava acompanhada da polícia.
A coordenação pediu que eu fosse prestar esclarecimento diante da acusação da aluna. Esta informou à mãe que a roubei e que só depois me arrependi e entreguei o iPhone na direção.
Incrédula, eu olhava para aquela prepotência em forma de menina. Ela ria de mim baixinho com as mãos na boca. A mãe, sobre um salto enorme, tentava me intimidar. Berrava. A polícia fazia perguntas, eu respondia calmamente.
Em poucos minutos, o caso foi resolvido. A polícia percebeu que a criança mentia e que estava ali perdendo tempo. Foi-se embora. A mãe não concordou, mas aceitou. Tentou prolongar a conversa:
– Minha filhinha não mente, diretora.
– Senhora, calma! Já foi resolvido. Apenas não permita que sua filha traga o aparelho novamente para a escola.
– Ela não me obedece! Não adianta!
Neste momento, a diretora encaminha a aluna de volta para a sala de aula.
– Tchau, mãe! Quando eu chegar em casa, não vou almoçar. Quero brigadeiro.
– Tudo bem, meu amor! A mamãe faz pra você.
Foi o momento em que pedi licença à diretora, voltei para sala onde estava. Graças a Deus já era quase o horário da saída. Todo aquele teatro causa-me náuseas só de pensar.
Hoje não voltei mais para a escola. Entreguei os pontos. Estou bem assustada com a geração que esses pais estão criando. Daqui alguns anos, verei um monte de adultos infantilizados, doutores em arrogância, incapazes de lidar com qualquer tipo de frustração.
Agora, madame, me responda: em quem você colocará a culpa quando seu filho desandar na vida?
Com certeza a culpa não será dele. Vai ser do professor, da escola, do pipoqueiro da escola, do sistema, da sociedade… Não é?


segunda-feira, 31 de julho de 2017

Os ipês

Como toda semente, suas sementes são joias. Trazem em si um segredo, uma vida, um futuro. Carregam a transformação, o crescimento, a missão.
Em solo fértil, germinam, desabrocham, revelam. Precisam de nutrição. Carecem de carinho, respeito, atenção.
Esperança de vida é agora vida. Vida que ganha forma, corpo, beleza colorida. Beleza que vem de branco, amarelo, rosa ou de roxo revestida.
Ao longe, pequenos ou robustos, posam para serem eternizados. Dificilmente passam sem serem notados.
Enchem os olhos daqueles que os avistam. Rompem o hábito dos meios urbanos e ornamentam as estradas ao bailarem ao sopro dos ventos. Conquistam.
São fortes, de lei. Exuberantes! Impõem-se.
Lentamente desenvolvem-se e, ao sorrirem ao inverno, oferecem-lhe as cores. Seus corpos são palcos, de onde caem as folhas, que, destemidas, deixam ali brilharem suas flores, prenunciando a aguardada primavera.
Assim são os ipês.
Mostram-se secos ao perderem suas folhagens, mas desvendam uma floração espetacular. É como o ser humano que, após seu tempo de resiliência e recolhido em algum período da vida, ressurge ainda mais belo e forte.

Ipês são esplêndidos por si só e, emoldurados pela imensidão azul do céu, quando floridos, harmonizam e desvendam a grandeza, copiosa beleza da Divina criação.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Admirável Lula


Meu nome é Maria. “Sou brasileira, com muito orgulho e com muito amor. ”
Faltam-me palavras para definir este homem.
Pernambucano, nascido Luiz Inácio da Silva. Foi metalúrgico. Ganhou notoriedade depois de sua atuação como representante sindical. Como dizem hoje, ele gostava de “causar”. Pesadelo da ditadura militar, no final de década de 70, o sindicato de metalúrgicos já era o início da caminhada deste senhor rumo à presidência. Um sonho. Admiro homens sonhadores.
Cofundador do Partido dos “Trabalhadores”, o famoso PT, sempre amou de ir para as ruas, liderar greves, aparecer e bater no peito afirmando estar do lado dos trabalhadores. Salvador da pátria.
Trabalhador, honesto, um mito!
Após várias tentativas, foi eleito, por duas vezes consecutivas, presidente da República.
Que momento esperado! O homem de caráter, o bom samaritano governaria para os trabalhadores e para a população menos favorecida. Afinal, sempre foi do povo, não é mesmo?
Humilde, inteligente, corajoso!
De metalúrgico a presidente! Que vitória deste nobre homem, conhecido como Lula. Conquistou muitos discípulos. Admirável!
Nasceu em família muito pobre. Coitado! Morava na zona rural, em casa de chão batido, onde faltava energia elétrica. Dormia amontoado junto dos irmãos.
De discurso verdadeiro, eloquente, emocionado, sempre comoveu o povão. Fez maravilhas em nosso Brasil. Ficou conhecido internacionalmente.
Neste momento lágrimas marejam meus olhos. Falar de Lula sempre me impressiona, me abala, faz meu coração acelerar. Desde criança.
Luiz Inácio, em sua infinita bondade, ficou ainda mais popular por ter implantado os programas maravilhosos que se tornaram marca de sua política, de seu governo. Que alma boa e caridosa!
Bolsa-isso, bolsa-aquilo, bolsa-aquilo-outro, em meio a tantos benefícios que passaram a ser oferecidos ao povo, especialmente nas regiões mais pobres, fico incrédula. Que imenso o coração deste ser humano!
Lula, meu companheiro, jamais conseguirei ser tão convincente como você nas palavras, nos discursos, nos gestos de generosidade. Jamais conseguirei chorar as lágrimas de crocodilo que você chorou em algumas ocasiões.
Como você é pilantra, cara! Que malandro! De todos desse tal partido dos trabalhadores, você é o “melhor”, o mais cara de pau. Aplausos de pé!
Conquistou uma riqueza extraordinária, furto de seu trabalho duro. Mas quem prova que você roubou? Você é tão magnífico, que consegue eliminar provas e tudo o que vá contra seu nobre caráter. Afinal, a profissão mais honesta é a do político como você. Ah, e você é o homem mais honesto desse nosso Brasil, sil, sil!
Prova disso é esse bando de velho leso que já caiu antes de você. Eu te admiro, Luiz. Seus seguidores são mais que seus discípulos, são seus reféns. Você manda, relativamente, em tudo quando se fala em PT.
Você é bom mesmo, hein, camarada?
Mas hoje preciso abrir o meu coração: eu não simpatizo com você desde que eu era criança. Nunca fiquei nem um tiquinho sensibilizada por você ter nascido pobre, ter morado lá na sua casinha de chão batido. Tem gente que mora nas mesmas condições até hoje e governo nenhum se comoveu. Nem você se importou com isso enquanto presidente. Óbvio! Na maioria das vezes, onde há um povo simples, que mora na casinha como a de seu passado, que põe o filho naquela escola em que as crianças sentam no chão e querem somente a merenda de lá (quando tem), há ali um povo sem cultura, que vive de migalhas oferecidas por um governo autoritário, um governo que manipula e agrada essa gente simples, que nunca ouviu falar em cidadania.
Só consigo sentir nojo quando vejo essa sua cara na TV. Tenho náuseas quando ouço sua voz. Deus me perdoe por isso. Tenho raiva da idolatria pra cima de você, que é tão mentiroso, corrupto, hipócrita, sujo. Saiba que há muitas vivas almas mais honestas que você.
Sinto revolta quando penso que meus pais, meus amigos e eu já trabalhamos mais que você na vida e, até hoje, não conseguimos acumular nem a riqueza correspondente ao valor de seu triplex. Mas, olha, presta atenção: a casa está caindo. Se segura aí, companheiro! A queda vai ser dolorida.
Tem nível superior?
Hahaha.



quinta-feira, 13 de julho de 2017

Carta de um pequeno super-homem



Oi, meu nome é Arthur. Eu amei este nome. É forte!
Sou de Duque de Caxias, estado do Rio.
Fui gerado no coração do Papai do Céu com muito amor, através do meu papai e da mamãe. Eles esperaram ansiosamente minha chegada. Consegui, por 9 meses, sentir todo carinho e amor quando conversavam comigo, brincavam, compravam minhas coisinhas, montavam meu quarto. Simples, mas tudo lindo! Mamãe estava toda babando.
Eu só ficava um pouco assustado quando assistiam TV e comentavam as notícias. Falavam de política, da situação do país e, claro, da violência, principalmente em nossa comunidade, nossa cidade, nosso estado.
Eles sempre foram humildes, pessoas sonhadoras. No entanto, às vezes, esses sonhos são desviados da rota planejada, mesmo contra nossa vontade.
Prestes a vir ao mundo como minha família sonhou, no último dia do mês de junho deste ano, 2017, minha mamãe saiu e, de repente, se viu no meio de um tiroteio entre policiais e bandidos traficantes. Aquela violência de que ela e o papai falavam estava diante de seus olhos agora. Pude sentir o desespero dela, temente que algo pudesse acontecer comigo.
E aconteceu. Infelizmente aconteceu.
Uma bala perdida atingiu minha mamãe, bem na região daquele barrigão, meu abrigo até então.
Rapidamente ela foi atendida e, com urgência, me tiraram dali porque eu corria risco de morte.
- Nem nasci ainda, como é que vou morrer? – eu pensava.
Começava ali uma batalha. Constataram de fato o ocorrido. Mesmo protegido, antes de eu sair do ventre da mamãe para conhecer esse mundo aqui fora, aquela bala de arma de fogo perfurou o útero dela e me atingiu. Percorreu algumas partes do meu corpo. Nem sei ao certo por onde essa bala passou. Doeu tanto, sangrou tanto... Nunca tinha sentido tamanha dor. E eu que pensei que a dor mais forte que eu sentiria seriam as cólicas nas madrugadas. Quanta inocência a minha! Pude imaginar também a dor da minha mamãe. Com certeza, bem mais que física. E meu papai? O que será que ele sentiu ao saber que, em poucas horas, nós viramos notícia no mundo inteiro?
Estou rezando desde aquele momento em que, aleatoriamente, fomos injustamente atacados. Eu senti que tinha sido grave. Está sendo bem triste. Não pude ir ao encontro do mundo como as outras crianças. O mundo veio de encontro comigo, me afrontando friamente. Um mundo diferente do que eu imaginava. Um mundo sem cores, tenebroso. Abreviaram meu tempo no útero da mamãe.
Por quê?
Até agora ela não me pegou no colo, não está aqui comigo. Sinto falta. Estou aqui em um hospital, ainda em estado muito grave. Ela está em outro. Deve estar preocupada comigo. Eu quero que a mamãe fique bem. Eu sei que Papai do Céu vai me salvar. Não tenho só um nome forte. Eu serei pra sempre forte. Rezem por ela.
Estou cheio de aparelhos no corpo e ouvi os tios falando aqui que existe a chance de eu andar só de cadeira de rodas porque a bala machucou minha coluna. Mas eu, como eles, acredito em milagre e que isso possa ser revertido. Eu já estou melhorando. Fiz muitos planos para quando eu deixasse aquela barriga linda e tão amada.
Eu quero jogar bola com meu pai, apostar corrida com ele, ficar na calçada de casa, correr com as outras crianças, ir pra escola e ter um montão de amiguinhos. Brincar de super-herói, soltar pipas e aprender a voar como elas. Quero crescer, trabalhar e ajudar o pessoal da comunidade.
Tenho poucos dias de vida. Não estou gostando daqui, embora os tios sejam legais. Estão cuidando de mim, me acalmando, me ajudando a viver. Acho que assustei todo mundo por aqui com essa situação. Porém eles foram, como sempre, tocados pelo Papai do Céu e tiveram compaixão para com a gente. Estão se doando para que minha mamãe e meu papai me peguem logo no colo, como tanto desejaram, e me levem pra casa. Não vejo a hora de mamar e ficar protegido.
Sinto medo.
Também fico triste porque agora eu entrei para a estatística do estado do Rio de Janeiro como um caso de violência fora do comum. Serei de novo notícia na retrospectiva no final do ano na TV. Vão falar outra vez como aqui é perigoso, que falta segurança, mostrando gráficos que confirmam o crescimento dos casos de crueldade e o número de gente inocente morta minuto a minuto.
É muito triste...
Bem... Preciso descansar pra me recuperar.
Continuem a orar por mim e pela minha família. Minha briga pela vida começou antes de eu nascer. Agora, do lado de cá, estou resistindo. Eu vou conseguir, vocês vão ver. Assim como minha família, eu sei que vocês estão esperando eu ir pra casa. Não vejo a hora de dormir no meu berço lá no meu quartinho preparado pela mamãe e pelo papai.

Com amor,

Arthur


sexta-feira, 9 de junho de 2017

DESELEGÂNCIA VIRTUAL

“A palavra vem do grego ethos e significa aquilo que pertence ao ‘bom costume’, ‘costume superior’, ou ‘portador de caráter’. Princípios universais, ações que acreditamos e não mudam independentemente do lugar onde estamos”.
Já ouviu falar em ética?
Ah, não? Releia o primeiro parágrafo. É isso aí: ética é pra ser usada em todo lugar. Em sua casa, no seu trabalho, na sua vida - aqui inclui sua vida virtual também, especificamente falando em redes sociais.
Redes sociais: eis o problema, eis o foco!
Penso que deveria existir um processo seletivo para dar a algumas pessoas o direito de se inscrever em contas de redes sociais. Você não acha?
Essas pessoas são aquele tipo clássico que compartilha notícia tendo lido só a manchete ou ainda se sente o repórter policial. Adora compartilhar tragédias e entrar em discussões banais.
Os que usam as redes sociais como plataformas para lamentos ou provocações poderiam ser banidos, da mesma forma que os eleitores partidários fanáticos – especialmente os que dão a vida por um tal Lula aí. Povo chato! Brigam, insultam e criam inimizades pra honrar uma ignorância besta que aflorou após sua vida virtual. 
Em aplicativos de mensagem instantânea é a mesma coisa. É mais suportável receber centenas de mensagem de bom dia do que aturar um chato deselegante em grupos criados para facilitar a vida e estreitar a amizade.
Quem nunca se deparou com um desses?
O cidadão é tão ordinário que joga uma 'direta', fala mal de você no mesmo grupo em que você está. É a pessoa mais negativa, mais polêmica, mais popular, mais problemática e mais inoportuna do grupo. Quer descontar seus problemas pessoais ali, sobre as pessoas que nada têm a ver com o desamor que preenche sua vida. 
O que é que custa usar rede social para criar vínculos sociais? Pra quê espalhar o ódio, a inimizade, a discórdia?
Não tem o que falar? Fica quieto! Emojis de joinha ou de carinhas amarelinhas de bobo alegre seriam bem mais simpáticos. 
Gente, já foi o tempo em que internet era terra sem leis. O que você compartilha hoje pode ser usado contra você amanhã. Não fale mal de seu coleguinha nas redes sociais porque ele pode te presentear com um processo por crime de injúria, calúnia e difamação. Cuidado com os famosos prints! Você não é tão bom ou esperto quanto pensa!
Que tal descontar sua raiva e revolta limpando uma casa, lavando um carro ou dando uma voltinha pelo bairro? 
Todos têm o direito de se expressar, mas é bom manter a cautela ao se manifestar sobre determinado assunto. Se o problema for intriga pessoal, mande uma mensagem privada para seu desafeto. Comece a treinar hoje. Aprenda a observar apenas a fim de aprender a ser elegante e ético nas redes sociais. Você será bem visto e bem quisto daqui a pouco tempo.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

TURMINHA DO "EU ME ACHO"






Estou só observando essa geração de crianças e adolescentes de autoestima superelevada, incapaz de seguir regras ou lidar com frustrações. Uma geração que, desde cedo, não aceita crítica, não tem limites, não aceita ‘não’ como resposta, não tem autonomia nenhuma.
Quanta gente melindrosa! Quanto mimimi!
Daqui a alguns anos, creio que veremos um monte de adultos bebês, de ego sensível e extremamente inflado.
E agora eu me pergunto: o que é que vocês estão arrumando, pais?
Vamos acordar! Coloquem na cabeça que seu filho não é melhor que ninguém. Pode ser pra vocês, pro mundo, não! Ao invés de mimarem oferecendo o mundo, ensinem-no a viver esse mundo, mas de forma real.
Que mania imbecil de achar que seus filhos são vítimas do mundo.
Ah, e não quero ouvir: você não tem filhos, por isso pensa assim!
Não! Não tenho filhos, mas qualquer um pode ver o narcisismo aflorado na molecada. Uma turminha que ‘se acha’ e tem se tornado cada dia mais arrogante.
Na escola, sofre bullying, a nota baixa é culpa do professor, o frio é justificativa da falta em dia de prova, o colega é sempre o vilão, não pode ser chamado à atenção, não aceita receber ordens. As crianças ou adolescentes têm todos os direitos, mas nenhum dever. Falam mal professor, insultam, falam mal na internet. E vocês, pais, enchem o peito, vão até lá, brigam em defesa da cria mesmo sem saber o que aconteceu – estão emocionalmente comovidos pelas lágrimas de seus bebês. Afrontam o professor e, claramente, mostram o porquê de o filho ser como é. Lamentável!
Em casa, essas ‘crianças’ não podem arrumar a cama, sabem malemá amarrar tênis, não colocam comida no prato, não esquentam o leite e vão dormir sem escovar os dentes. Na rua a historia é outra: beijam na boca, seguem as tendências da moda, falam de sexo (não apenas) e mandam ‘nudes’ via rede social.
Têm milhares de amigos virtuais, poucos reais – não conhecem o valor da amizade. Não conseguem resolver um desafio de matemática, mas têm a coragem e a curiosidade aguçada pra conhecer os desafios de um tal jogo chamado “Baleia Azul”.
Coitadinhos desses jovens. São tão frágeis. Tudo os magoa.
Triste é saber que vão se magoar ainda muito mais se seus papais e suas mamães continuarem a passar a mão em suas cabecinhas, a aplaudirem até seus erros, não estabelecerem limites, não estimularem a independência e continuarem a tratá-los como bebezinhos birrentos.

sábado, 15 de abril de 2017

Padre Fábio de Melo e Evaristo Costa: uma dupla bem-aventurada

Bem-aventurados os que usam a internet para entreter, porque serão eternamente queridos.
Padre Fábio de Melo e Evaristo Costa são mitos nessa tal de rede mundial de computadores. Divertem seus seguidores com maestria. O sarcasmo e a ironia de um casam perfeitamente com as sensacionais tiradas públicas e sinceras do outro. O resultado é surpreendentemente cômico. De vez em quando eles “trocam troladas”, se cutucam ali - de forma amigável, claro - e o riso é certo.
Milhares de pessoas deveriam se inspirar nesses dois ao utilizarem redes sociais, que não foram feitas para serem palco de lamentos, disseminação de tragédias, sensacionalismos ou inverdades; tampouco para mostrar a comida que se come. "Postar" a comida é a pior parte. É o ápice da carência.
Qual interesse da outra pessoa em saber se eu como macarrão ou arroz com feijão?
O que posso mudar na vida dela postando publicamente minha refeição do almoço de terça-feira? Penso que nada!

Ter um padre - comumente um homem mais reservado – interagindo com seus fieis seguidores, fazendo piadas e criando personagens engraçados a partir de aplicativos, é, no mínimo, de se admirar. Ter o padre Fábio de Melo ali com seu comportamento inusitado, dando o ar de sua graça, mostra que nem só de pregação vive um sacerdote. Simpático com o povo, nunca perde o bom humor e não rebate críticas.
Em entrevista já afirmou que precisa ter imunidade afetiva para não se deixar abater. Ainda que a vontade possa ser responder à altura, seria, no mínimo, contraditório, no caso dele. A chuva de hipocrisia e moralismo viria à tona: "Nossa, um padre falando assim?!" Como se o coitado não fosse um "terráqueo" como nós.
Ver um jornalista famoso dando atenção especial aos seus tantos fãs já é diferente. Ler o que Evaristo escreve em resposta a seus milhares de seguidores é hilário e atrativo, tanto pela ironia e sinceridade nas palavras, quanto pelo contraste com sua realidade na emissora em que trabalha.
Os internautas provocam e “Eva”, como carinhosamente chamado nas redes sociais, sempre surpreende a quem o acompanha com suas alfinetadas diretas.
Há muitos padres que, dentro das próprias paróquias, estão longe de seu povo, e jornalistas que, na ânsia de verem seu nome estampado numa notícia bastante lida, perdem seu tempo denegrindo a imagem do outro.
Os tempos mudaram e personalidades, para estarem mais próximas do povo, foram para as redes sociais. A diferença é que o padre e o jornalista citados encontraram o caminho certo para chegarem até as pessoas, simplesmente sendo quem são fora de suas atividades, usando a cordialidade e o bom humor. São agradáveis no que fazem e na maneira como fazem. Desta forma, tornam mais leve a rotina pesada e cansativa, e quebram aquele conceito de seriedade próprio de um padre e de um jornalista de bancada.
Extrovertidos, descolados e “zueiros”, não afetam a imagem alheia e ainda conseguem divertir até aqueles que não são fiéis na igreja católica ou fãs do sistema Globo se comunicação.

domingo, 31 de julho de 2016

SAGRADO ENTARDECER

Era terça-feira. Do altar ele a vê adentrar a igreja. Alta, esguia, aparentando trinta e poucos anos. Chorava soluçando. Respirava profundamente. Ele apenas a observava cheio de compaixão. Era o momento da exposição do Santíssimo.
Paramentado, o religioso tentava se concentrar no momento sagrado, mas a pobre moça roubava-lhe a atenção. Aquele alheio sofrimento causava-lhe desconforto.
De onde viria aquela jovem senhora? Por que chorava tão desesperadamente?
Ao término do rito diário, antes da missa das dezenove, o padre aproximou-se da mulher e disse:
- Em que posso ajudá-la, minha filha?
Não obteve resposta. E insistiu:
- Moça, quer conversar?
Ela fitou os olhos nele, levantou a cabeça lentamente e caminhou rumo às escadarias, sem dizer uma palavra.
O padre permaneceu ali porque já estava próximo do horário da missa. Proferiu em voz alta que Deus a abençoasse.
No dia seguinte, ao arrumar o altar, viu novamente a moça entrando na igreja. Bem vestida, aparentemente calma, ficou ali durante a oração ao Santíssimo. Calada, reflexiva, em posição de oração. Às vezes o choro era silencioso e ininterrupto. Isso se repetia pelo menos três vezes na semana.
Numa quinta-feira, ao fim do ritual, ela permaneceu sentada. Desta vez, o padre aproximou-se e, também calado, sentou-se ao seu lado.
Padre Pedro era alegre, muito humano e solícito; por esse motivo, era muito querido pelos fieis. Há cinco anos estava à frente daquela paróquia. Conseguiu arrebanhar muitos dos católicos que estavam distantes das missas.
- Tudo bem, padre?
- Estou bem, com a graça de Deus! E a senhorita? Há dias que a observo. Por que chora tanto?
Conversaram durante vinte minutos.
 - Ok! Procure-me, então, na segunda, na casa paroquial, para a confissão.
- Combinado! Segunda, às 17h30, padre. Eu irei.
Às segundas não celebrava missas lá. Padre Pedro aproveitava o dia para organizar a casa paroquial, descansar e, vez ou outra, atender alguma confissão. Lá tinha um terreno de árvores frutíferas, onde colocava sua cadeira de balanço. Relaxava, fazia leituras e apreciava estar mais próximo de Deus por meio da natureza.
Era manhã de um cinco de outubro. Acordou cedo, organizou a casa, alimentou os animais. Fez caminhada, almoçou. À tarde, deitou-se em sua rede no quintal. Adormeceu. Acordou com o soar da campainha. Era a fiel que iria confessar-se.
O Padre foi até a porta, convidou-a para entrar. A tarde estava muito bonita.
- Posso atendê-la aqui mesmo? A igreja está fechada...
- Óbvio, padre. Não há problema.
- Entre! Esteja à vontade, filha.
Sem hesitar, ela entrou, seguiu-o até o quintal. Ele ofereceu-lhe uma cadeira.
- Conte-me, minha filha! O que a traz aqui?
- O senhor, padre! – exclamou ela, ensaiando um riso com o canto da boca.
- Não entendi! – manifestou-se ele, um pouco confuso.
- Pedro, você não está me reconhecendo? - retrucou.
- Continuo não entendendo, senhorita.
- Pedro, sou a Lúcia. Como pôde se esquecer de mim? – indagou inconformada.
Com a cabeça baixa, o padre não esboçava nenhum movimento.
- Não se recorda de nossos entardeceres lá atrás da Matriz de Santo Antônio? - persistia a moça. Foi você quem me tirou a pressa de ver a noite, que me mostrou a beleza cotidiana do adeus do sol, lembra? Passei anos à sua espera...  Ah, Pedro...
Padre Pedro ficou estático. Com os olhos na direção do sol poente.
- Prossiga! – ordenou ele, enrubescido, encarando-a rapidamente.
- Pedro, eu não estou brincando! Veja essa tarde! É como as tardes em que nos encontrávamos. Há anos choro todos os dias esse horário, quando me lembro do nosso esconderijo, daquilo que poderia ter sido. Eu amava, e ainda amo, aquela incerteza... As reticências do nosso passado, Pedro...
 - Lúcia! – ele a interrompeu.
- Diga, Pedro.
- Eu sou padre – disse-lhe, tocando levemente e delicadamente a face.
- E aquelas juras, Pedro? E nossas tardes cheias de poesia? Você me comparava ao crepúsculo, lembra? Você não é mais aquele homem corajoso? Você me prometia a eternidade, gostava de se deitar comigo na grama e olhar o céu alaranjado, aguardando a chegada do cintilar da lua... Eu ainda te amo.

[Silêncio]

Lúcia saiu da casa paroquial quando era noite. A tarde envelheceu e a moca foi-se embora a pé, sem rumo, cambaleante.
Padre Pedro, atabalhoado, passou a noite em claro. No dia seguinte abriria a Igreja às seis.
Às cinco e meia já havia tomado o café. Pegou a chave e foi para a Igreja. Passou o dia ali. Às dezessete e trinta começou a arrumar o altar. Estava inquieto. O horário da exposição do Santíssimo se aproximava. Nem sinal da moça desta vez.
Padre Pedro a esperou por dias, semanas e meses para conversar após o dia da confissão. Não tinha nenhum contato para que pudesse chegar a ela.
- Senhor, Senhor! Eu sei que tudo sabes! – orava o padre em uma tarde qualquer.
Durante muitos dias, punha-se de joelhos e permanecia em misterioso silêncio.  Os entardeceres de padre Pedro pareciam cinzentos agora. As portas para a noite eram abertas sem surpresas. Nas orações, pedia a Deus sabedoria.
Seguiu com sua vida na paróquia.
Cerca dez meses depois, Lúcia apareceu em um começo de tarde. Padre Pedro ainda estava na sacristia. Ao reconhecê-la, lá de dentro, veio ao seu encontro. Parou, encarou-a e disse, com um tremor característico na voz:
- Lúcia, quanto tempo! O que a traz aqui?
Lúcia respirou fundo, apontou para o cesto próximo aos seus pés e sorriu:
- Oi, Pedro! Quero batizar o bebê.

domingo, 19 de junho de 2016

DESENROLAR DA QUADRILHA

Sentado em sua cama numa noite de inverno, Carlos terminava de reler uma história que escrevera há alguns anos, bem antes do tempo moderno:
"João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.”
No ápice da lucidez, parou e pôs-se a refletir, convicto desta vez:
- Espera aí! Lili amava, sim. Não se casou com J. Pinto Fernandes?
Sob a fraca luz de seu aposento, começou a rabiscar o único retalho de papel que estava ao seu alcance no momento:
Lili se casa com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história, mas há tempos estava de olho naquela elegante senhora. Soube-se por aí que esse moço queria formar família, com três varões e uma filha.
Depois de onze meses do enlace com Lili trouxeram à luz o pequeno Frankuiney. Em seguida, veio a doce Joquebedes e, mais pra frente, os gêmeos Litibenque e Achillynney.
O mais velho, aos dezoito, saiu de casa e, amando Zoneide, sobrinha-neta do João, aquele que amava Teresa antes de ir para os Estados Unidos, uniu-se em matrimônio à moderna e se mandou a um lugar desconhecido.
Joquebedes, toda meiga, não estudou e virou meretriz. Conheceu Juasine, Risoleta e Bissetriz. Com elas foi morar e seu passado fez questão de apagar.
Os gêmeos, aos quinze, começaram a namorar. Litibenque com Anaslete, Achillynney com Deusidete. Anaslete já tem barriga, John Weire está por vir. Deusidete por desgosto, já ensaia com outro fugir.
Eclésia é a garotinha que nessa história apenas passa. Joquebedes não a quis por preferir vida ordinária. A pequena Pastor Welbis rejeitou, sua origem saberá Deus onde ficou! Madre Teresa a acolheu; hoje anseia adoção por uma alma de bondoso coração.
Kiovranny, Baruel e Anaslete esperam por DNA. Não se sabe de que amor vieram a brotar.
Lili caminha desconsolada pelas ruas e agora só chora. J. Pinto Fernandes queria mesmo era ter ficado de fora. Ninguém ama ninguém.
E a história toma novo rumo agora...

Carlos, já sonolento e cansado, adormeceu com caneta e papel ao seu lado.


Texto finalista MAPA CULTURAL PAULISTA Edição 2015 - 2016